Um Kadett de família

A história do chevrolet Kadett que passou por três gerações de uma família

O Chevrolet Kadett veio ao Brasil no final da década de 1980. O modelo Já existia na Europa há mais de 50 anos sob a marca Opel, subsidiária da General Motors. Foi a quinta geração do modelo que ingressou no país, depois de anos de pesquisa e investimento de 220 milhões de dólares para adaptá-lo ao mercado brasileiro.

Rodrigo de Almeida Fraga de Oliveira – Wikipédia

Em abril de 1989 o Kadett foi lançado no Brasil na versão hatchback e, em outubro do mesmo ano, na versão perua (Ipanema). Durante seu período de produção no país, de 1989 a 1998, foram vendidas 451.496 unidades no país (Kadett e Ipanema). Disponível com motores à gasolina e a álcool, a lista de opções incluía câmbio automático de 3 marchas (só em modelos com motor a álcool), ar-condicionado, direção hidráulica, regulagem da altura do banco e da suspensão, rodas de liga e rádio com toca-fitash.

O Kadett dessa história é um 1.8 SL E, que já faz parte da família do senhor Alexander Balog há quase 28 anos. O carro foi um presente de Alexander para sua esposa, Sylvia. Alexander conta que buscava um carro que fosse confortável, prático e que tivesse câmbio automático. Sabendo que sua esposa preferia carros mais compactos, o Kadett foi o melhor carro automático compacto que o Alexander encontrou no mercado nacional naquela época. “Na época era difícil ter um carro pequeno automático, normalmente os automáticos eram carros grandes, como Monza, Landau etc).

O carro já iniciou sua trajetória marcando a história da família de Alexander, já que ele escolheu fazer uma surpresa para sua esposa ao presenteá-la com o Kadett. “Eu escolhi o carro, combinei com a vendedora da concessionária e deixei toda a parte burocrática resolvida. Saí então num sábado para passear com a Sylvia já com tudo planejado. Estávamos na rua Tabapuã, no Itaim, passando por uma concessionária Chevrolet (que atualmente não está mais lá), quando pedi pra Sylvia para entrarmos e darmos uma olhada nos carros. Consegui convencê-la e entrar na concessionária, a vendedora nos atendeu e nos levou até o Kadett, que estava no pátio (novinho em folha, não estava nem emplacado ainda). Falei para a Sylvia olhar o carro, entrar, sentar. E aí eu perguntei: ‘Você gostou?’ e ela disse: ‘Ah, eu gostei!’, e aí eu falei: ‘Então, ele é seu!’, e foi assim que eu a presenteei com o carro”, conta Alexander.

Sylvia então utilizou o Kadett durante muito tempo para transportar os filhos do casal, Lucas e Gabriel. “O carro era aquele carro cheio de migalhas de bolacha nos bancos, sempre tinha que lavar e limpar por dentro porque os meninos comiam batatinhas, bolachinhas etc”, diz Alexander. “Mas a gente foi muito feliz, o carro sempre nos atendeu muito bem durante todo esse período que ficou com a Sylvia. Ela ficou com o carro até 2001, que foi quando nos mudamos para Piracicaba. Moramos 6 anos em Piracicaba, e quando nos mudamos pra lá a Sylvia se encorajou a trocar de carro, porque até então ela dizia: ‘Eu tenho um carro muito bom, com tudo o que eu preciso (ar condicionado, travas elétricas, vidros elétricos, teto solar, câmbio automático) e não chama muita atenção’, e a gente sempre se preocupou muito com segurança,  existem carros que chamam muita atenção de bandidos”, diz ele.

Durante os primeiros 10 anos com o Kadett, a família viajou muito com  carro. Alexander conta: “A gente colocou um engate nele que está lá até hoje, o Gabriel, meu filho, chama de bola de tênis. A gente levava carreta com motocicleta, íamos para o camping, pois a gente teve um trailer, a gente puxava esse trailer com o engate. E o Kadett nunca nos deixou na mão”.

Em 2001, Sylvia comprou um Mercedes-Benz Classe A, um carro que na época era seminovo, e muito mais tecnológico que o Chevrolet Kadett. Naquela época entretanto, o Kadett já valia muito pouco, portanto o casal optou por mantê-lo para usá-lo quando o Classe A estivesse na oficina e quando fosse rodízio da Mercedes em São Paulo.

Algum tempo depois, o pai de Alexander, Jacov Balog, hoje falecido, passou a usar o Kadett. Segundo Alexander, “Quando meu pai estava chegando aos 90 anos de idade, a família começou a pressioná-lo para que ele parasse de dirigir e embora ele tivesse dirigido a vida toda, já tivesse sido até motorista de caminhão, ele já estava velhinho. Então começou uma ‘campanha’ por parte das minhas irmãs, do meu cunhado e da minha mãe para que meu pai parasse de dirigir. Um dia então meu pai veio até mim e disse: ‘Estão querendo que eu venda o carro, não querem me deixar dirigir porque minha habilitação vai vencer e etc’, e então eu disse: ‘Olha, pai, quer saber de uma coisa, eu tenho o Kadett, você pode vender o seu carro (ele tinha um Honda Civic pouco usado, com 40.000 Km apenas) e eu deixo o Kadett na sua garagem. Quando eu precisar, eu uso, e quando você precisar, você usa’. E foi isso que ele fez: ele renovou a CNH dele e pegou o Kadett, andou bastante com o carro (distâncias curtas, mas andou bastante)”.

Jacov Balog trabalhando como frentista em um posto de gasolina em Israel no final da década de 1940. Créditos: família Balog.

Como já era bem idoso, o sr. Jacob já não possuía tantos reflexos ao volante, e acabou dando algumas “raladinhas” no Kadett. “Até então o carro tinha a pintura completamente original, não havia sido feito nenhum retoque. Mas aí infelizmente aconteceram algumas ‘raladinhas’ no para-choques traseiro e outras coisas do tipo e eu fui obrigado a retocar a pintura do carro. Mas, tudo bem! Valia o gosto de ter meu pai podendo andar de carro, porque isso era uma coisa importante para ele. As pessoas reclamavam que era muito perigoso, que ele (Jacov) não tinha mais reflexos, mas ele andava muito devagar, então o risco era esse: uma batidinha, um raladinho no para- choques etc”, fala Alexander.

O sr. Jacov chegou até a dar uma entrevista para o Diário de S. Paulo para a edição do dia 15 de novembro de 2015, sobre pessoas idosas que gostam de dirigir. Recentemente, o sr. Jacob infelizmente veio a adoecer e falecer, mas as memórias do seu amor por dirigir permanecem vivas na memória da família.

Após tantos anos de uso, o Kadett inevitavelmente apresentou alguns problemas, mas nada muito sério. De acordo com Alexander, “O problema mais sério foi uma vez que teve que arrumar o câmbio. É um câmbio automático e não é qualquer um que sabe mexer. No restante, o carro apresentou problemas menos complexos, nada fora do comum. É um bom carro, apesar de ser ‘beberrão’, mas isso é normal, já que a tecnologia dele é muito antiga, já ultrapassada”.

É raro conhecer uma família que permanece com o mesmo carro por quase 30 anos. Alexandre procurou contar um pouco do porquê a família permanece com  carro até hoje, compilando algumas das razões já citadas e acrescentando outros motivos: “Até hoje ninguém ofereceu nenhum valor que significasse alguma coisa. A Silvia volta e meia tenta me convencer me desfazer do Kadett. Eu gosto do carro mas eu não tiro a razão dela. Já fizemos alguns testes, até hoje o valor máximo que me ofereceram pelo carro foi de 14 mil reais, e eu achei que não valia a pena. Apesar de não ser pouco dinheiro, com 14 mil reais não dá para comprar um outro carro que pode oferece o que esse carro oferece, por isso eu não o vendi. Mas se alguém oferecer um valor melhor eu posso vender sim, porque eu acredito que a gente não deve ficar se apegando a bens materiais”. Alexander atribui seu amor pelo Kadett a uma paixão por carros que vem desde sua infância: “Eu sempre fui apaixonado por carros, desde bem pequeno. Existem fotos minhas quando bebê abrindo a porta do Fusca dos meus pais. Eu sempre gostei muito de carros, de motos. Hoje menos, hoje as preocupações a velocidade das coisas não me deixam com tanto tempo para curtir essas coisas. Mas eu gosto muito mesmo do Kadett, é um carro tão bacana, que está bem original, eu procuro mantê-lo bem original, o interior é todo original e eu procuro mantê-lo nessas condições. Eu gosto muito do carro, mas a gente não tem que se apegar tanto às coisas, então se tiver que vender o Kadett um dia eu vou vendê-lo sem problemas”, conta.

No fim das contas, o Kadett já faz parte da história da família Balog, passando nas mãos de 3 gerações da família. Primeiro,o carro foi dirigido durante anos pelo casal Alexander e Sylvia. Depois, o pai de Alexander, Jacov, dirigiu o carro para seus compromissos diários durante seus últimos anos ao volante. Atualmente, Gabriel, o filho caçula recém habilitado de Alexander e Sylvia, dirige o Kadett por São Paulo. O carro esteve presente em bons e maus momentos da trajetória da família. O futuro do carro, como o de todos nós, é incerto. Mas o Kadett 1989 da família Balog carrega um lindo e rico passado consigo.


6 comentários em “Um Kadett de família”

  1. Pingback: Chevrolet no Brasil: maiores sucessos - Meu Xodó

  2. Arthur Vieira

    Caro Guilherme, é com imenso prazer que venho encontrar seu blog ! deixo aqui algumas lágrimas ao lembrar do meu gol quadrado 94 também de familia, que depois de algum tempo teve problemas estruturais devido ao uso por 20 anos numa fazenda, você como sempre eternizando carros e fazendo suas histórias cada vez mais impares, e trazendo a cultura que carros são unicos mesmo que produzidos em série, meus parabéns e sucesso

    Seu velho amigo Arthur !

  3. Waldomiro Medeiros Junior

    Me lembro quando lançaram o modelo GS. A equipe Carlos Cunha fez uma apresentação aqui em Pinda, com manobras radicais! Fiquei vidrado no carro!

  4. Esse Kadett,na Europa era o Astra,que aqui teve,no início,de se chamar Kadett,pois Astra era uma marca de assento sanitário!
    Kadett era,na Europa, nosso Chevette aqui,que não podia se chamar Kadett,pois a ditadura militar não deixou,para não confundir com o cadete militar!

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